Educação pela natureza: uma questão que não sai do papel

As Diretrizes para a Ed. Infantil preconizam a construção de sentidos sobre a natureza. Como fazer isso acontecer em pátios cimentados, com brinquedos de plástico?

O Jornal O Estado de São Paulo, publicou no dia 29/05 uma matéria a respeito da Educação Infantil na cidade (“Creche terceirizada bate recorde em SP”). A reportagem mirou a grande quantidade de creches conveniadas, um formato que é fruto de parcerias entre entidades sem fins lucrativos e o governo municipal. Nessa análise, comparou-as com os centros de educação infantil construídos e geridos pelo governo. Mas esqueceu de apontar uma situação grave e comum a todos os formatos: a falta de natureza em grande parte das instituições.

reportagem jornal estado de são paulo 29-05A comparação entre os formatos revelou que as creches conveniadas enfrentam sérias dificuldades que acentuam diferenças na qualidade da educação infantil oferecida pelo governo:

  • Diferenças no padrão da merenda escolar,
  • Precariedade na manutenção dos prédios,
  • Insuficiência de mobiliário,
  • Regime diferenciado na contratação dos profissionais.

Mas uma situação que se sobressai, não mencionada na reportagem, são as discrepâncias notáveis entre o que preconizam os currículos pedagógicos e diretrizes oficiais para a Educação Infantil e as orientações para a construção e adequação dos espaços físicos das creches.

Conteúdos pedagógicos em espaços inadequados

Um dos aspectos mais inconsistentes é a falta de exigência de edificações com áreas externas e naturais suficientemente amplas para favorecer o contato e as experiências das crianças com a Natureza.

De acordo com os documentos oficiais do MEC, no artigo 4º da versão de 2009, as propostas pedagógicas da Educação Infantil deverão considerar que a criança, centro do planejamento curricular, é sujeito histórico e de direitos que, nas interações, relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza e a sociedade, produzindo cultura.

Segundo a versão de 2010, as práticas pedagógicas que compõem a proposta curricular da Educação Infantil devem ter como eixos norteadores as interações e a brincadeira e garantir experiências que: (…)Incentivem a curiosidade, a exploração, o encantamento, o questionamento, a indagação e o conhecimento das crianças em relação ao mundo físico e social, ao tempo e à natureza.

De acordo com o mais recente Currículo Integrador da Infância Paulistana, 2015, cuida-se (da criança) acolhendo, ouvindo, encorajando, apoiando no sentido de desenvolver o aprendizado de pensar e agir, de cuidar de si, do outro, da escola, da natureza, da água, do Planeta.

Assim, pelos documentos, uma educação infantil de qualidade deve valorizar experiências com a natureza por meio de práticas que privilegiem o brincar, a pesquisa sobre o mundo físico, social, os recursos e os ciclos naturais.

Como proporcionar vivências significativas em espaços assépticos, limitados, com pouca exposição ao sol, cimentados, ou pior, com objetos de plástico e revestimentos artificiais como a grama sintética?

O que a cidade de São Paulo exige de seus parceiros

Indícios dessa incongruência ficam claros ao examinarmos as determinações da Secretaria de Educação da Cidade de São Paulo sobre as condições mínimas para adequação física e instalação das creches conveniadas. Entre os requisitos mínimos estão as exigências para os espaços externos, tão valorizados quanto um depósito de materiais ou uma sala de reunião. Comumente chamados de solário (onde foram parar os parquinhos e jardins?), a Secretaria exige:

  • “equipamento de recreação infantil” (os mais acessíveis e comuns são de plástico!),
  • “bancos acessíveis à estatura das crianças” (onde já se viu pensar em parquinhos para crianças ficarem sentadas!),
  • “parede semipermeável”,
  • “piso pavimentado em parte, de fácil higienização e acessível” (terra, areia, pedras e outros pisos naturais são considerados inapropriados),
  • “previsão de ponto de água fria” (não para brincadeiras, para a higiene do local!),
  • “área exposta ao sol” (com quais dimensões? Não existe indicação da relação entre tamanho da área ensolarada e o número de crianças)

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A realidade

Que tipo de espaço é oferecido para as nossas crianças sentirem, brincarem, se relacionarem, se expressarem e pesquisarem a Natureza? Como estamos trabalhando as bases para a formação de cidadãos sensibilizados e ecologicamente responsáveis?

Parquinhos sem Natureza

Para 64% das creches municipais, aquelas com formato “conveniado”, a exigências para a construção de parquinhos e jardins é simplesmente inexistente. A realidade dos espaços de infância das nossa crianças geralmente se restringe a diminutos solários, com CEUs sem Naturezaaproximadamente 20 m2, para 100 ou 200 crianças, localizados em uma laje adaptada no topo de pequenos edifícios. Essas áreas, totalmente cimentadas, são gradeadas ou teladas, com um conjunto de brinquedos de plástico.

Nas creches da prefeitura, entre elas, as construídas em alguns dos famosos CEUs, apesar de contarem com espaços amplos, seus pátios são enormes áreas cimentadas, sem recursos naturais, a não ser pequenos canteiros gramados, o sol, o vento e uma chuva ocasional, quando os professores são pegos de surpresa e as crianças aproveitam para brincar com o clima e a água! Em dias de sol intenso, protetores solares seriam prescritos por dermatologistas.

Transtorno do Déficit de Natureza

Nossos pequenos não pisam na terra, não constroem a noção de tempo e ciclos de vida, não pesquisam os fenômenos naturais, não criam brincadeiras desafiantes, não percebem o clima, a diversidade da fauna, da flora e suas inter-relações. Nos espaços diminutos, elas não usam o corpo em toda a sua potência e não desenvolvem uma consciência de preservação dos recursos porque simplesmente não os conhecem.

Não é possível acreditar que estamos educando nossas crianças adequadamente quando rompemos um elo tão essencial quanto o brincar na terra. Somente ao experimentar um contexto genuíno de natureza, com seus elementos, rusticidade, crueza, beleza e transformações, é possível construir o elo, a intimidade e o pertencimento das crianças ao meio ambiente natural.

É brincando na natureza que a criança pode desfrutar de infinitos enredos e cenários de brincadeiras. A natureza é o chão:

  • Captura de Tela 2016-05-31 às 18.40.25do brincar
  • da cultura da infância
  • dos relacionamentos
  • dos movimentos
  • da estética
  • da criação
  • das transformações
  • dos ciclos de vida

Num país ainda rico em natureza, onde o desmatamento ilegal é quase regra, com níveis crescentes e perceptíveis no dia a dia, é nossa responsabilidade formar crianças e futuros adultos conscientes de seu papel na preservação dos recursos naturais e no equilíbrio dos ecossistemas.

Nos dias 13 (SP) e 15 (Rio) de junho, o jornalista norte-americano, ativista e co-fundador do movimento internacional Children and Nature Network, Richard Louv virá ao Brasil para explicar porque cunhou o termo Transtorno do Deficit de Natureza (TDN). A convite do I Seminário Criança e Natureza, do Instituto Alana, ele pretende sensibilizar educadores, pais e interessados sobre o impacto negativo da falta da natureza na vida das crianças.

Para Richard, ambientes naturais são essenciais para um desenvolvimento saudável da criança porque estimulam todos os sentidos e integram a brincadeira à aprendizagem. Experiências multissensoriais em ambientes naturais ajudam a desenvolver estruturas cognitivas necessárias para um desenvolvimento intelectual.

Será que ele é o único que pensa assim? Cremos que não… Essa questão é profunda e fundamental. Precisamos pensar, agir e transformar os espaços de educação, antes que o nosso planeta degradado faça isso por nós!

PARA SABER MAIS… 

Veja a programação do I Seminário Criança e Natureza: Folder-I-Seminario-CeN

→ Leia mais sobre a importância do contato da criança com a Natureza nas postagens:

2 pensamentos em “Educação pela natureza: uma questão que não sai do papel”

  1. Realmente, os padrões básicos de infraestrutura que os CEIs conveniados seguem são bem ultrapassados diante do contexto que nossas crianças vivem atualmente, por isso tbm algumas “cobranças” dos Supervisores, baseadas neste padrão distanciam os CEIs da realidade. O que percebo é que os novos documentos elaborados pela Secretaria de Educação de SP, como o Currículo Integrador de SP, sugerem um trabalho diferente, o que vemos aí que as mudanças estão chegando, mas alguns documentos são contraditórios á outros fornecido pelo mesmo município. Vale lembrar que com toda esta discussão nos aproxima da necessidade que temos em cada vez mais aproximar os espaços públicos ás crianças e criar medidas para que estes espaços sejam repensados ás nossas crianças…

    1. Oi Renata!
      É isso mesmo. Estamos caminhando para aproximar os conteúdos dos currículos da realidade. É uma luta que não pode esmorecer.
      Mas são atitudes criativas, como a sua no CEI Barra Manteiga, que tem levado as crianças para um parque incrível a cada 15 dias, que contornam as restrições e qualificam as experiências infantis.
      É uma luta que pode ter saídas.
      Grande abraço!

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