Uma casa que se transforma, uma escola que nasce da história

Escola do Bairro: uma proposta da educadora Gisela Wajskop que se instala num imóvel com história e natureza e busca parcerias com os equipamentos culturais e científicos do bairro.

Fomos conhecer as obras de instalação da Escola do Bairro, da educadora Gisela Wajskop, localizada na Vila Mariana, bairro histórico da cidade de São Paulo. Por que fomos até lá? Porque essa escola preserva a história de seu prédio e valoriza a cultura da comunidade do entorno. Porque seus muros vão abraçar os espaços verdes e equipamentos culturais e científicos de Vila Mariana. Porque o quintal verde da casa-escola é uma mancha de natureza, com os encantos de árvores e sombras, áreas para água e para fogueira, muita terra, areia, pedras, sol e até almoçar vendo o céu.  

O caminho já se mostrou um percurso prazeroso. Ruas repletas de casinhas pequeninas, com janelas, portas e cerquinhas, cobertas pelas sombras de grandes árvores centenárias e jardins com azaleias e roseiras passadas de geração em geração. Moradias mágicas que mostram para rua uma fachada pequena e singela, mas que, ao passar pelos portões, revelam quintais gigantescos e espaços recheados de mistérios. Uma dessas casas será a nova escola da pós doutoranda em Educação Gisela Wajskop.

Escola do Bairro 1A partir de uma vida de salas de aula, pesquisa e muito estudo, Gisela está reformando uma casa com arquitetura típica dos anos de 1940/50 para transformá-la na ESCOLA DO BAIRRO. A reforma do imóvel conversa com as crenças da educadora, que cuida de cada detalhe para preservar os rastros históricos do prédio e a atmosfera do bairro. Tudo pensado para que seus futuros alunos convivam com todos os aspectos da educação, da cultura e da cidadania. Uma concepção de que o que está de fora também está dentro. Não existem lados, porque sutilmente, espaços internos e externos parecem um só. Assim como corpo e alma.

Segundo Gisela, “BAIRRO” é, ao mesmo tempo, nome e conceito que sustenta a escola experimental voltada para a infância. Do ponto de vista da Vila Mariana, é considerada como um equipamento urbano de convivência, difusão e sistematização dos conhecimentos históricos e universalmente construídos. Tem o objetivo de incluir bebês e crianças nas culturas de suas famílias e na cultura geral humana, a partir dos equipamentos urbanos disponíveis no bairro. Assim, o Bairro é educador, oferece sua arquitetura para as crianças, as formas de ser e estar de sua população, os equipamentos sociais, culturais e comerciais parceiros e complementares à escola.

Ao considerar que os espaços revelam a história de um lugar e das pessoas que ali viveram, Gisela respeita as marcas históricas do prédio, construindo um presente modificado e um futuro imaginado. Os materiais utilizados na reforma, como janelas, portas, pisos, cores e a distribuição dos espaços, revelam como as pessoas que ali viveram se relacionavam. Essa percepção fica no ar para que os novos frequentadores a experimentem. Com isso, procura-se recuperar a história de ocupação do imóvel e trazê-la para os dias de hoje.

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Contudo, foi preciso fazer adaptações para adequar a casa aos novos usos escolares. Gisela e os arquitetos optaram por não fechar as portas e janelas existentes e, ao contrário, abrir novas em espaços que provavelmente foram fechados ao longo da história de ocupação da casa. Derrubaram algumas paredes, mantiveram outras e uma linda escada de madeira que faz toc-toc quando subimos ou descemos por ela. Com isso, deixaram os rastros de sua existência.

Gisela nos contou que compreender os espaços também representa uma forma de educar pelo olhar, pela ocupação e pelos encontros que eles possibilitam.

Isso nos fez refletir a respeito dos inúmeros imóveis ocupados por prefeituras de todo o país, transformados em escolas de Educação Infantil. Quanto cimento, esquadrias de alumínio e plásticos substituíram uma cultura rica e histórica? Desse modo, privamos nossas crianças de respirar, criar e experimentar histórias de vida e de comunidades inteiras. Destruímos raízes!

Por isso, a Escola do Bairro busca uma identidade brasileira para educar, inspirando-se em diversas experiências nacionais e internacionais que contribuem para a construção dessa identidade. O conceito de ser criança de uma determinada família, bairro, cidade e país está diretamente associado ao espaço que a escola quer ocupar. Espaço material e imaterial.

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Pensando no nosso privilegiado clima tropical, quente e úmido, Gisela acredita que aprendemos nos ambientes internos da escola e também ao ar livre. Por isso buscaram referências na arquitetura brasileira rural, com seus elementos vazados (aqueles blocos perfurados que ficam aparentes), janelas amplas, portas de correr e varandas que criam uma transição entre o interior e o exterior, permitindo que as crianças vivenciem os quatro elementos naturais: terra, água, ar e fogo, em um contínuo visual, sensitivo e convivial. Assim, quando o vento entrar na sala por frestas intencionais, será sentido pelas crianças e professores, ou quando o sol projetar a sombra de uma árvore, vai inspirar a contação de histórias.

Dessa maneira, uma mancha de natureza presente em um pequeno lote urbano poderá ser experimentada intensamente, quando os espaços de convivência, de brincadeiras e de trabalho acontecerão contornados por materiais fluidos, que permitem integrar o aberto e o fechado, o dentro e o fora, o objetivo e real e o subjetivo, como ocorre nas construções internas infantis. A água está presente em todas as salas em cantos com “área molhada”, com bancadas e tanques, convidando a pintar, modelar, colar, construir e testar hipóteses com facilidade de recursos. Varandas atraem pensadores para respirar e se inspirar. Portas amplas permitem que pequenos galhos de árvores entrem nas salas, revelando que a natureza e a cultura são obra de um mesmo homem.

Escola do Bairro 5As cinco salas multisseriadas, o imenso quintal verde coberto pela sombra das árvores, áreas molhadas, áreas para se maravilhar com uma fogueira, muita terra, areia, um refeitório envidraçado que permite colocar a cadeirinha para fora e comer sob o céu, vão abrigar crianças e suas brincadeiras, da Educação Infantil até o final do Fundamental 1.

Essa reforma e, ao mesmo tempo, a construção de um espaço de educação promete descobertas e novos modos de associar espaço educativo a desenvolvimento infantil. Vamos acompanhar de perto essa jornada que se inicia pelas mãos da educadora Gisela Wajskop, e dos arquitetos Gabriel Grinspun e Jairo Marcelo Gen, cuja expertise e sensibilidade foram fundamentais no desenho de um espaço que considera o direito das crianças de compreender de onde vieram para construir aonde querem ir.

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6 pensamentos em “Uma casa que se transforma, uma escola que nasce da história”

  1. Ao saber que Gisela havia se desligado do Instituto Singularidades fiquei triste, pois ali conclui a minha faculdade com muita dificuldade, e muita vontade de mudar a realidade na Educação. Ao saber desse novo projeto fiquei felicíssima, pois sabia que ali estava nascendo mais “um filho amado e querido” era assim que Gisela definia o projeto que criou de coração e que deu muito certo. Com certeza a Escola do Bairro dará também.
    Parabéns Gisela e viva a natureza que conseguiu preservar!

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