Um acervo de ideias para reinventar o Desenho

Como podemos variar os desafios do Desenho? Que tal ampliar seu repertório de possibilidades e aprender a fazer giz de lousa gigante e tintas congeladas

Para as crianças, o desenho é brincadeira, desafio e prazer com os próprios movimentos. Mais tarde, as marcas também são valorizadas.
Para que essa brincadeira continue e seja ampliada é preciso desenhar sempre e, em especial, pensar em alargar os desafios.

 O que interfere no desenho e o que pode variar os desafios?

desenho 3Para a neurocientista mineira Leonor Bezerra, o cérebro das crianças está no início do seu desenvolvimento. Nesse momento é ideal provocar diversas áreas cerebrais com estímulos multissensoriais, isso é, que obriguem a criança a sentir e usar vários órgãos dos sentidos ao mesmo tempo. Assim, o ato de desenhar, que já se mostrou importantíssimo para favorecer a expressividade e as narrativas, também ganha pontos com os estímulos motores e proprioceptivos* associados às emoções e sensações. Quando propomos desafios mais amplos para os pequenos, bombardeamos [no bom sentido] diferentes áreas cerebrais ao mesmo tempo. O resultado disso é conexões nervosas mais abrangentes e complexas. E isso é provocar desenvolvimento, porque aprender é assumir novos comportamentos e atitudes.

RISCADORES

Ao pensarmos em propostas variadas e mais amplas para o desenho, o primeiro aspecto que passa pela nossa cabeça é a técnica. Lápis de cor, giz de cera, giz de lousa, canetas hidrográficas e tintas são as mais utilizadas. Porém, é preciso alargar as possibilidades que oferecemos aos pequenos.

Balão-na-PráticaQue outros riscadores podemos disponibilizar?

É claro que melhorar a qualidade desses materiais já traria contribuições para o ato de desenhar:

  • Giz pastel oleoso, por exemplo, marca o papel com mais intensidade de cores e expressa melhor os movimentos.
  • Canetões – como os pinceis atômicos – acentuam os riscos e exigem o desenvolvimento de novos controles.
  • Tintas mais fluidas, como boas aquarelas, nanquim ou mesmo de corantes alimentícios transformam o ato de pintar.

Mas não é só a qualidade dos materiais mais utilizados que amplia os desafios. Pensar em propriedades como largura, comprimento, dureza, textura e cor dos riscadores contribui para diversificar os gestos do desenho.

desenho IV

dica

  • Unir 2, 3, 4, 5 ou 6 lápis de cor com fita crepe muda tudo! Muitas cores riscarão aos mesmo tempo e estimula a descoberta de novas formas de pegar o riscador.
  • Derreter o giz de cera e, utilizando diferentes formas, alterar os formatos
  • Prender um giz de lousa na ponta de um pedaço de cabo de vassoura  ou de um galho demanda muito outros controles dos gestos para riscar.
  • Usar pedaços de carvão (pode ser o da churrasqueira!) e de tijolo, provocam outras sensações do tato (peso, textura, dureza, pressão) e da visão.
  • Usar vassouras com tinta para pintar no chão e nas paredes
  • Usar estopa, esponja, pinceis feitos com estopa ou esponja na ponta, pinceis feitos com fios de lã.
  • Dar novos usos para as escovas de dentes vencidas. Pode-se cortar um pouco as cerdas modificando os formatos.

SUPORTES

Balão-na-PráticaOnde riscar também pode despertar para diferentes aprendizagens. Além da mesa e do chão, é interessante:

  • Mudar os planos onde apoiamos os suportes (papeis, cartões, plásticos etc.) exige da criança outras estratégias para adequar os gestos. Alterne os locais onde são colocados os papeis para desenhar:
  • Colocar os suportes no chão reto, inclinado, curvo (que tal envolver o papel num balde com algo pesado dentro? E desenhar em rolinhos de papel higiênico ou papel alumínio?), regular, irregular, duro, macio (já pensou em propor um desenho com o papel fixo no eva ou no isopor?)
  • Colocar nas paredes – na altura das crianças, perto do rodapé, no alto (para ser pintado com um prolongador, por exemplo o giz fixado na ponta de um pedaço de cabo de vassoura),

variando as formas de desenhar

  • Fixar os suportes embaixo da mesa, da cadeira, do banco (obriga a criança a inverter totalmente sua postura e a forma de olhar e controlar a mão)
  • Variar os tamanhos: papeis, caixas etc, grandes e bem pequeninos. Traz desafios. É importante saber que quanto menores as crianças, maiores devem ser os suportes.
  • Fixar os suportes com fita crepe no chão e na mesa é importante. Mas não fixar também! Com o papel solto, por exemplo, as crianças precisarão elaborar e testar estratégias para manter o suporte fixo ou desenhar aproveitando a sua mobilidade.

Propor diferentes qualidades de suportes também amplia os processos:

  • Desenho no rodapéPapeis com cores, espessuras e tamanhos variados (já pensou aprender a desenhar no papel de seda? Os primeiros vão rasgar… mas e depois de repetir o processo algumas vezes?)
  • Cartolinas e cartões
  • Caixas (por fora e por dentro!), embalagens, plásticos (com canetas tipo marcador e tintas)
  • Pedras, folhas, galhos, sementes, terra, areia. Uma boa ideia é preparar cartolinas com cola e areia/terra e, depois de secas, propor o desenho com giz de cera ou de lousa)
  • Lixas, azulejos, tijolos, blocos de concreto (verificar a segurança dos materiais quanto a extremidades cortantes ou toxicidade. Lojas de materiais de construção e pesquisa na internet podem fornecer essas informações)
  • caixas, caixotes e embalagens

PROPOSTAS DE INTERFERÊNCIA

Desenho 1Balão-na-PráticaInterfira diretamente no desenho:

  • Proponha papeis e cartões com uma diversidade de formatos:
    • Regulares – círculos (com e sem furo no meio – isso ajuda os pequenos que estão descobrindo desenhar curvas), quadrados, triângulos, retângulos compridos etc.
    • Irregulares – tipo ameba, minhocas, estrelas etc.
  • Coloque uma interferência no suporte:
    • um risco no meio do papel
    • um pedaço de papel colorido ou de diferentes texturas
    • uma forma
    • um corpo ou uma cabeça de pessoa ou animal recortado da revista, uma casinha, um carro, uma árvore e veja se mudam as narrativas.

desenho

Para finalizar esta postagem, sugerimos duas receitas de riscadores desafiadores e originais, que provocarão diversos sentidos e movimentos.

GIZÃO DE LOUSA

Ingredientes:

  • giz de louza giganteGesso em pó
  • Tinta guache ou corante de alimentos
  • Rolinhos de papel higiênico, de papel toalha e de papel alumínio (estes cortados no meio)
  • Papel manteiga
  • Fita crepe
  • Tesoura
  • Um recipiente para misturar o gesso e a água e uma colher
  • Paciência para esperar secar! Então precisa ser preparado com pelo menos 24 horas de antecedência.

Modo de fazer:

Depois de cortar o rolo de papel toalha ao meio ou usar o rolinho do papel higiênico inteiro, fechar a parte de baixo dos tubos com fita crepe. Cortar um pedaço quadrado de papel manteiga na altura dos rolinhos, enrolar e colocar dentro do rolo, assim, a massa de gesso seca vai soltar facilmente depois de endurecida.

Misturar a tinta guache ou o corante em uma boa quantidade de água (geralmente as proporções de água e pó de gesso estão descritas no pacote do gesso em pó). Para obter cores mais intensas não economize na quantidade da tinta/corante. Misturar o pó de gesso à água aos poucos e ir mexendo a massa até obter um “creme” líquido. Despeje este “creme” dentro dos rolos de papel, preparados previamente com o papel manteiga e deixe endurecer. Quando o gesso estiver seco, retirar o papelão e o pedaço de papel manteiga. Deixar “curar” dessa forma por mais 10 horas nos dias secos e de sol, ou 24 horas em dias mais úmidos.

para fazer giz de louza gigante

dicaPode-se fazer esse giz com outros formatos além do cilindro. Podem ser usadas formas de cupcake, forminhas de areia, de chocolate etc..

 

TINTA CONGELADA

Desenho com tinta congeladaJá pensou em quantas sensações estão envolvidas quando os pequenos pintarem com tintas congeladas que vão derretendo aos poucos?

Ingredientes

  • Tinta guache
  • Um pouco de água
  • Formas de gelo
  • Palito de sorvete

Modo de fazer

  • Misturar as tintas com um pouquinho de água para que não fique tão concentrada. Se usar muita água as cores ficarão enfraquecidas e, talvez, não deixarão marcas intensas.
  • Colocar as tintas nas forminhas.
  • Levar ao congelador por alguns minutos.
  • Quando perceber que as tintas começaram a endurecer, fixar meio de cada espaço um palito de sorvete e levar de volta ao congelador.
  • Esperar até que esteja bem firme e remover da forma.

Dicas

  • É possível variar o formato dos gelinhos coloridos usando embalagens de iogurte, caixas de ovos de isopor, formas de chocolate etc.
  • Também é interessante repetir a proposta várias vezes, ora fazendo os gelinhos com o palito e ora sem.

para fazer tinta congelada

Para concluir, precisamos sair da nossa caixinha e pensar em outras situações para desafiar e repetir, desafiar e repetir, desafiar e repetir. É assim que as crianças aprendem. É assim que também criamos e aprendemos com elas.

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Balão-Para-Saber-Mais* Propriocepção é a capacidade de reconhecer a localização espacial do próprio corpo e de suas partes.  

Leia mais sobre Desenho nas postagens:

→  O que o desenho nos conta?
→  É dança? É música? É desenho? É dança-desenho?
→  Para compreender o desenho e sua poética
→  Palavra de… Edith Derdyk: o desenho do gesto e dos traços sensíveis
→  Desenho: espelho do desenvolvimento infantil

 

 

4 pensamentos em “Um acervo de ideias para reinventar o Desenho”

  1. Que ideias! Muito legal!!!
    Na escola que trabalho, vamos começar com as salas ambientadas ou cantões e faremos um teste nesta sexta. A sala que represento fará intervenções sobre o eixo “Comunicação e Expressão”. Em um dos cantos vamos ofertar às crianças as diversas possibilidades de se expressar e comunicar, entre elas o desenho, garatuja, rabisco, de forma livre! O site é muito inspirador… já usei e vou usar de novo as ideias propostas por aqui. Agradeço pela ajuda!

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