Palavra de… Claudia Siqueira: um projeto que escuta as crianças

O que a criança sabe e diz? Escuta e registro para compreender o como a criança constrói sua visão de Mundo. Ação que mobilizou famílias e professores.

– Sabia que tem coisas que só as crianças sabem? Pedro Henrique 5 anos.
– Vem comigo, vamos descobrir a felicidade atrás das flores. Ela mora lá. Fernanda, 4 anos.  
Conversamos com Claudia Siqueira, diretora do Colégio Sidarta, sobre o projeto Impressões Infantis, que valoriza a escuta e o registro da voz da criança.

coleçãoTempo de CrecheComo surgiu o projeto Impressões Infantis com o registro das falas das crianças em casa e na escola?

Claudia – O projeto foi inspirado na pesquisa de Loris Malaguzzi, sobre a escuta genuína ao universo infantil, ou seja, como a criança constrói  sua visão de Mundo. Loris foi um dos idealizadores das escolas Reggianas. Iniciamos esse projeto em 2008 e, portanto, já estamos na 8a edição.

Quando temos a oportunidade de revisitar a nossa história, seja através dos desenhos de infância, dos primeiros cadernos ou de roupas guardadas em belas caixas, ganhamos uma espécie de oxigênio mágico, que traz lágrimas aos olhos, o sorriso escancarado à boca e abraços saudosos, impregnados de lembranças de momentos de nossas vidas que dão significado ao que somos hoje.

Tempo de CrechePor que registrar a fala das crianças é importante para as famílias?

Claudia –  Na ocasião que lançamos a proposta do projeto Impressões Infantis para as famílias de alunos de Educação Infantil do Colégio Sidarta o desafio era registrar as falas de seus filhos durante o ano de 2008. Nossa intenção era documentar esta fase tão importante da vida de nossas crianças, a ingenuidade presente em suas indagações, a pertinência das reflexões e promover momentos de escuta genuína entre filhos e pais.

redações

A memória é um presente que ganhamos, porém o seu registro nos dá a possibilidade de perpetuá-la e dividi-la com a humanidade ao longo de muitas e muitas gerações, não através de nossa voz, mas de muitas vozes, dos mais diferentes tons e idades. Acreditamos que esta iniciativa estreita os vínculos entre pais e filhos.

Sentimos que a tarefa proposta para as famílias foi muito bem recebida, ainda que exigisse disciplina, pois com um pequeno caderno de anotação em mãos, registros preciosos foram ocupando páginas vazias, e a cada leitura ficava evidente o quanto este projeto mobilizou a família como um todo, afinal, ele solicitava um olhar atento, uma escuta de qualidade e um registro fiel.

Tempo de Creche – O registro das falas das crianças é praticado na escola também? Qual a sua relevância?

Claudia– Sim, na escola e na casa da criança. Aliás não tem muito lugar “físico”, a proposta é que os adultos refinem sua escuta ao universo infantil e que estejam atentos e aberto para garantir a escuta genuína.   A relevância é despertar a atenção destes tutores, para aquilo que a criança pensa, verbaliza, opina e ensina sobre o Mundo.

Impressões 1Tempo de Creche – Qual a repercussão desses registros entre as crianças?

Claudia – Eles gostam muito. Inclusive já o renomearam para ” o livro de te faz rir”: Mãe, pega aquele livro da escola que eu fiz que te faz rir e lê para mim? Também quando um aluno fala algo que os adultos riem, eles logo dizem, – o que eu falei para o livro, né?

 

Coleção Impressões Infantis

As oito edições dos livros do projeto contém pérolas do pensamento lógico e poético da infância. Selecionamos algumas para dar um gostinho daquilo que a comunidade do Sidarta sente a cada nova edição.

Mãe, se todo mundo veio do primeiro homem, então todo mundo é irmão!
(Teodora, 6 anos)

Perguntei ao Felipe:
Fê, o que você quer ser quando crescer?
– Seu filho!
(Felipe L. – 5 anos)

Eu sou tipo menina-homem, eu não gosto só de princesa, cor-de-rosa e “nhenhenhém”. Eu também gosto de futebol, bruxa e suer-herói”.
(Nina, 5 anos)

Durante uma viagem de carro com sua família, Manuella questiona ao pararem em um Impressões 5posto de gasolina:
Por que paramos aqui?
– Para colocar gasolina no carro.
– O que é gasolina?
– É a comida do carro para ele andar.
Alguns minutos depois, Manuella pergunta:
Madrinha, é gasolina do quê? De morango ou de banana?
(Manuella, 3 anos)

Mamãe, você sabia que o planeta é uma bola cheia de países?
(Luigi, 4 anos)

Ju, quando tiver um casamento, você quer ser daminha?
– Não, quero ser a noiva!
(Juliana, 3 anos)

No parque, brincando com as meninas da sala:
Você é o pai, Bernardo! Vai, fala o que temos que fazer.
– Tá. Então, fica quieta!
(Bernardo, 3 anos)

A pedagogista e presidente da Reggio Children, Carla Rinaldi pensa a escuta e registro como “forma de aceitar de bom grado e estar aberto às diferenças, reconhecendo o valor do ponto de vista e da interpretação dos outros”. E que  “a escuta tira o indivíduo do anonimato, que nos legitima, nos dá visibilidade, enriquecendo tanto aqueles que escutam, quanto aqueles que produzem a mensagem ( e as crianças não suportam ser anônimas)”.

Trechos do livro Diálogos com Reggio Emilia: escutar, investigar e aprender, de Carla Rinaldi. Editora Paz&Terra, 2012

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 claudiaClaudia Siqueira

Diretora do Instituto Sidarta e autora de livros de Educação. Graduada em História e Pedagogia, com especialização em Educação Infantil, pós-graduação em “Aperfeiçoamento de docentes de Educação Infantil e Ensino Fundamental” pela PUC e em “Pedagogia de Projetos e Tecnologias Educacionais” pela USP, especializada em pesquisa e estudo da Primeira Infância em Harvard e estuda Metodologias Educacionais em Stanford.

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