Moradias do saber: uma reflexão sobre aprendizagem

Aprendizagem, autoria do próprio pensamento e saber, construção de conhecimento. Um texto da pediatra Julyanne Nakagawa Oliveira sobre os ensinamentos de Madalena Freire.

Madalena Freire, filha do educador e filósofo Paulo Freire, é uma de nossas gurus. Para nós, Madalena traz conceitos sofisticados, essenciais e, na mesma medida, simples e práticos. Ao ler e ouvir Madalena, você enxerga o contexto da sala de aula, os alunos e se percebe como professor.

angela-rizzi-madalena-freire-joyce-rossetAproveitando uma rara oportunidade, estamos participando de um curso ministrado por ela em São Paulo – Grupo de Estudo: o papel do registro na formação do educador. Como toda aula da Madalena, precisamos registrar, refletir e produzir uma síntese – um resumo comentado – sobre os conteúdos abordados e a aprendizagem que ficou.

julyanne-n-curso-madalena-freireJulyanne Nakagawa, uma das nossas colegas do curso, fez uma síntese sensível, que traduz as sensações de aprender e, consequentemente, de compreender aquilo que causamos ao ensinar. Processos de aprendizagem começam com o que nos tira do conforto, o que nos provoca e incomoda.

Quando algo nos instiga, perece que provoca um burburinho na nossa cabeça: isso parece fazer sentido, mas ainda não compreendo! Como explicar isso? Esse é o desconforto que nos move e nos faz querer aprender. Essa é a sensação que precisamos provocar ao ensinar os alunos … de 0 a 100 anos!

setaSíntese da Julyanne: AS MORADIAS DO SABER

Primeira fala de Madalena registrada por mim: “Cada um constrói o seu conhecimento”. Durmo com esse barulho e acordo, no meio da madrugada, com a seguinte ideia: nossa relação com o conhecimento é semelhante à relação que temos com nossa moradia, isto é, nosso conhecimento pode ser uma casa própria ou alugada. Pode ser de veraneio, emprestada, ou pode ser um abrigo ou barracão. Ou podemos simplesmente ser “sem teto”.

grupo-curso-madalena-freireTalvez essa associação tenha se dado por outra palavra muito mencionada por Madalena: “autoria”. Ela nos disse: “Quem é autora, assume o seu pensamento e sua autoridade…”. Então relacionei autoria com algo que é próprio, como a casa própria: minha casa, pertencente a mim, cuja escritura está no meu nome e, portanto a mim, e somente a mim pertence. A casa que é construída baseada em modelos: casa que já moramos, que visitamos ou que vimos em diversos meios de comunicação. À medida que vamos dando o nosso toque particular, à medida que vamos enfeitando a casa com objetos decorativos comprados em diversos lugares pelos quais passamos, a casa vai sendo só nossa. Tem nosso cheiro, tem nossa cor, tem nossa autoria.

Assim também é o nosso conhecimento: partimos de uma referência, buscamos outras, experimentamos, aplicamos considerando nosso contexto, ponderamos, refletimos, reagimos e então, remodelamos o conhecimento anterior.

E como continuou Madalena: “Aprender não é natural”. E por isso aprender por vezes causa dor. A dor de quebrar uma parede para poder ampliar a sala. A dor de mudar a posição da janela para poder melhorar a entrada de luz. A dor de suportar a bagunça de uma reforma a fim de garantir melhores condições de moradia.

E a casa possui moradores, os quais se relacionam com vínculos de amor ou… ódio ou…indiferença… E esses vínculos são extremamente importantes para que haja aprendizagem.

Bem, mas tem gente que prefere morar de aluguel, e por isso não se apega a teorias. Apenas se aproveita delas sem grandes reflexões e ações, pois afinal de contas, logo, cedo ou tarde, abandonará essa moradia. Ao morar de aluguel, a pessoa até tenta autoria, mas o espaço não lhe pertence e não há coragem e disposição para assumir a responsabilidade pela compra da casa.

E por fim, o “sem teto” talvez seja aquele que desistiu de perguntar e consequentemente, desistiu de desejar conhecimento e saber.

“O desejo nos move” a querer a casa própria. Eu desejo e eu pergunto: E você?

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Balão-Para-Saber-Mais

→ Julyanne Nakagawa Oliveira é médica pediatra, especialista em Gastroenterologia Infantil pela UNIFESP e sócia-fundadora do Berçário Cirandinha Baby (atual Berçário ECCOS). 

madalena-freire→ Madalena Freire é filha de Paulo Freire, sua seguidora e protetora de seu legado. Alguns pontos são referenciais da educação progressista de Madalena: centro de interesses, a educação como arte, a educação e a paixão, a emoção e a aprendizagem, o trabalho de grupo, sistematização e o registro do educador, o planejamento e a curiosidade das crianças, entre outros. Para ela, a educação é um espaço político-pedagógico, do qual a paixão deve ser propulsora das leituras do mundo. A educação é a possibilidade de humanização da sociedade, da construção da consciência. Ser educador é ser artista, pois a educação é uma arte – a arte de educar.

→    Leia mais sobre o conteúdo do curso da Madalena Freire e sobre grupos de estudo nas postagens:

→   O Curso Grupo de Estudo: o papel do registro na formação do educador é organizado pela Tais Romero da Pedagogia Subjetividade.madalena-freire-e-tais-romero

 

1 pensamento em “Moradias do saber: uma reflexão sobre aprendizagem”

  1. Admiro o trabalho de Madalena Freire e achei muito interessante a metáfora da casa, pensada pela Jullyanne para explicar a construção do conhecimento para cada um de nós. É exatamente assim, nossa própria casa nunca está terminada e sempre descobrimos maneiras distintas de melhorá-la a atender nossas necessidades e expectativas. Desta forma é a construção do conhecimento é sempre incomoda porque mudar pede quebra de “verdades”. Pede mudanças de atitudes, confusões, resistências…tudo necessário ao nosso caminhar.
    Obrigada pela reflexão

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