Palavra de… Richard Louv: natureza para educar e viver!

Você já ouviu o termo Transtorno do Deficit de Natureza? E Vitamina N? Criados pelo Jornalista Richard Louv para conscientizar o planeta sobre a importância dos ambientes de natureza para a saúde e a educação.

No momento em que repensamos currículo e ambiente de educação, questões como o “transtorno do déficit de natureza” precisam ser considerados. Tempo de Creche conversou com o jornalista americano Richard Louv, criador desse e de outros conceitos geradores de um movimento planetário de conservação ambiental, reurbanização e melhoria da qualidade de vida.

Tempo de Creche – Quais são as suas expectativas sobre as conexões entre as crianças brasileiras de áreas urbanas e a natureza? 

51dr4oni-UL._UY250_Richard – Eu acredito que as crianças brasileiras, assim como as crianças de todo o mundo, estão sofrendo do que eu chamo de “transtorno do déficit de natureza”. Como eu defino no livro A última criança na natureza (Last Child in the Woods), não se trata de um diagnóstico médico, mas de um termo útil – uma metáfora – para descrever o que as pesquisas científicas e muitos de nós acreditamos como custos humanos da alienação da natureza. Entre estes custos estão: diminuição do uso dos sentidos, dificuldade de atenção, taxas mais elevadas de doenças físicas e emocionais, aumento da taxa de miopia, obesidade infantil e adulta, deficiência de vitamina D e outras doenças. Para quem se interessar, o site Children & Nature Network compilou uma biblioteca online de estudos, relatórios e publicações, disponíveis para visualização ou download.

Tempo de Creche – Em grandes áreas urbanas como São Paulo e Rio de Janeiro, nosso governo tem permitido a instalação de escolas de educação infantil com áreas externas muito pequenas. Além disso, essas instituições não tem recursos ou a cultura de utilizarem rotineiramente os parques das cidades. Como você vê essa situação?  

Richard – É preciso realizar uma profunda mudança cultural. O objetivo é dar às crianças os benefícios da natureza a que eles têm direito, e a todos nós, encontrar familiaridade com as vidas em torno de nós, encontrando uma plenitude na vida que vivemos.

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Precisamos incorporar a questão da educação pela natureza e seus benefícios na formação de cada professor. Ao mesmo tempo, precisamos valorizar os muitos professores que ainda insistem em expor seus alunos à natureza, contrariando a tendência (certamente nos EUA) de aumentar a imersão em tecnologia e de desvalorizar as brincadeiras em ambientes naturais.

Os professores e as escolas não podem abraçar essa questão sozinhos.
Pais, políticas públicas e toda a comunidade devem incorporá-lo para que ele possa ser abordado como um tema nas escolas nas instituições de educação. Nós precisamos de um movimento cultural que eu chamo de Novo Movimento pela Natureza, e eu acredito que já estamos vemos isso crescer. Ele vai além dos programas que conectam crianças diretamente com a natureza e das questões relacionadas à ecologia e sustentabilidade, ele deve tocar cada parte da sociedade.

Tempo de Creche – Você identifica ações neste sentido no Brasil?

MexicoRichard – O Brasil é pioneiro em algumas ideias progressistas de desenho urbano e reurbanização. Nos EUA ficamos impressionados com Curitiba, que tem transformado lotes de terrenos abandonados em parques. Outros exemplos incluem Auas Calientes, no México, que, segundo relatos da Citiscope, transformou o estreito terreno ao longo de um gasoduto em 12 km de um parque linear que atravessa 90 bairros.

Ao meu ver, criar ou salvar parques deve ser parte de um plano maior para o futuro de uma cidade. Um passo nessa direção é convocar educadores, arquitetos, paisagistas, urbanistas médicos e outros profissionais para planejar as melhores estratégias de re-naturalizar a cidade ou a comunidade. Com um objetivo comum: promover o reencontro entre seres humanos e natureza, criando e ampliando o potencial humano e econômico da própria cidade.

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Ao promover discussões em torno de estudos científicos que atestam os benefícios do contato com a natureza, favorecemos o reconhecimento de que um habitat saudável aumenta o capital social humano, trazendo benefícios para todos. Nesse sentido, os profissionais podem prescrever uma “receita de saúde” para a cidade:

 como reconstruir a teia alimentar local;
  como estabelecer uma floresta urbana para limpar o ar e proporcionar sombra;
  como reconstituir e dar suporte à vida selvagem original da cidade;
  como instituir as bicicletas e os percursos para pedestres como alternativas para um transporte público mais limpo;
  como desenvolver políticas para incentivar a concepção e a construção de telhados, paredes e pátios escolares verdes.

Assim, cidades se transformam em motores de biodiversidade. Tal movimento poderia estabelecer um programa de pontuação regional para conceder benefícios econômicos em função da “verdificação” da cidade e, como isso, remodelar os cuidados de saúde, o turismo e a aplicação de leis que valorizam iniciativas positivas.

Tempo de Creche – Para vivenciar a natureza precisamos de grandes espaços?

Richard – Qualquer espaço verde proporciona benefícios para o bem-estar físico e mental.  É possível encontrar paisagens naturais em áreas urbanas como parques, um cantinho sossegado com uma árvore, em vasos com hortaliças colocados do lado de fora de casa e até mesmo num lugar tranquilo com vista para o céu e as nuvens.

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A conexão com a natureza deve ser uma ocorrência diária, e se nós projetarmos as cidades – incluindo nossas casas, apartamentos, locais de trabalho e escolas – em harmonia com a natureza e a biodiversidade, poderíamos transformar essa tendência num padrão comum. Sabemos que quanto maior a biodiversidade encontrada nos parques urbanos, maiores os benefícios psicológicos para as pessoas.

Cada um de nós pode ajudar a reconstruir as cadeias alimentares originais. Substituindo a flora existente por espécies nativas melhoramos a biodiversidade. Nesse aspecto, escolas, locais de trabalho, e as políticas públicas da cidade podem acompanhar o movimento. Por que não pensar em cidades como incubadoras de biodiversidade e motores para a saúde humana?

Tempo de Creche – É possível criar pequenas áreas naturais para educar e conscientizar crianças sobre a importância de conservar a natureza? 

Richard – Uma das mensagens dos livros Last Child in the Woods e O Princípio da Natureza é que conservar não é mais suficiente. Agora precisamos criar natureza. Para atingirmos a biodiversidade necessária e garantir uma vida saudável, é preciso começar a transformar as nossas cidades, pátios, casas, quintais e locais de trabalho em incubadoras. Essas ações transformadoras trarão grandes melhorias para a nossa saúde física e psicológica, para a sensação de prazer e felicidade, e para a capacidade de aprender.

Meu novo livro, Vitamina N, traz detalhes sobre formas de transformação das cidades de acordo com a suas municipalidades.Hoje vemos mais cidadãos naturalistas, escolas baseadas na natureza, jardins e plantações orgânica, agricultura urbana e novas formas de criar animais. Essas correntes unidas nos levarão a uma visão diferente de futuro: um futuro rico em natureza.

RichardRICHARD LOUV é jornalista norte-americano, co-fundador do movimento internacional Children & Nature Network. Criador do termo Transtorno do Déficit de Natureza (TDN), chamando a atenção da comunidade internacional para o impacto negativo da falta que a natureza causa na vida das crianças. Louv é autor de 9 livros, entre eles  A Última Criança na Natureza (Last Child in the Woods), já traduzido para mais de 15 línguas em 20 países, e  lançado em português pelo Instituto Alana.

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PARA SABER MAIS…

Captura de Tela 2016-05-31 às 18.40.25Richard Louv é o principal convidado do I Seminário Criança e Natureza, (Folder-I-Seminario-CeN) nos dias 13/06/2016, em São Paulo e 15/06, no Rio de Janeiro. Mais informações no site http://criancaenatureza.org.br 

→ Leia mais sobre a importância da natureza para a saúde e a educação das crianças nas postagens:

 

2 pensamentos em “Palavra de… Richard Louv: natureza para educar e viver!”

  1. Não podemos deixar de valorizar o brincar nas praças…a natureza… os parques,as comunidades devem lutar por políticas de valorização dos espaços naturais…. Maravilhoso o post do tempo de creche e a entrevista.

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