Crianças protagonistas das conversas

Registrar a fala das crianças exercita a atenção para o que elas sentem e entendem do mundo. Esse registro de conversas pode aproximar famílias e escolas.

Qual a importância de ouvir a fala das crianças? Falamos na escuta e no registro das colocações que os pequenos fazem sobre o mundo, suas relações com os adultos e as hipóteses que povoam suas mentes. Qual a visão de educadores e famílias a esse respeito?

Escutamos e acolhemos as crianças porque o que elas tem para expressar é importante. Crianças aprendem sempre, especialmente quando se interessam pelo assunto. Nós adultos precisamos identificar esses interesses para proporcionar melhores possibilidades de aprendizagem. Simples assim: se identificamos o que provoca a curiosidade dos pequenos, contribuímos com uma educação significativa que visa mudanças. Isso é falar sobre protagonismo infantil, onde os pequenos encabeçam seus percursos de brincar, pesquisar e aprender. Na postagem Protagonismo Infantil em quatro falas, a pedagoga Alice Proença coloca que o protagonismo só pode ser visto em função de uma relação. Alice diz que ora o adulto é protagonista, ora é coadjuvante. Ser coadjuvante significa estar criando um meio para o outro poder ser o ator principal, neste caso, a criança.

diário de registro das falas das crianças

→  Você tem escutado suas crianças?
→   Também se coloca no papel de coadjuvante para que ela tenha o papel principal?
→   Você provoca situações de conversa para levantar as hipóteses que os pequenos fazem sobre o mundo ao seu redor?
→  Você tem o hábito de registrar as falas captadas nas conversas e também as espontâneas?

 Claudia Siqueira, diretora do Colégio Sidarta, SP, propõe que a cada ano, pais e professores munidos de uma caderneta, registrem as falas inesperadas, poéticas, inteligentes e admiráveis, de crianças de 0 a 6 anos. No final do ano, esse material precioso se transforma numa publicação compartilhada com as famílias e a equipe do colégio. O que o Sidarta quer com esse projeto? Mais do que a publicação, Claudia propõe aos adultos o exercício de uma escuta cuidadosa e intencional, que qualifica o trabalho educativo. Tempo de Creche conversou com famílias que cultivam o hábito de registrar a fala das crianças para conhecer como esse registro é feito e o que está por trás dele.

Em quais momentos/situações as conversas acontecem?

Descobrimos que para algumas famílias as refeições são bons momentos de conversa.
BernardoAna Mariza, avó de Bernardo, 3 anos e 1 mês, conta que durante uma refeição o menino se exibia para uma visita. Comia pegando o alimento com as mãos. A mãe e a avó advertiam: “Use o garfo!
Ajude com a faca! Talheres são para isso!”.
– Talheres?!! O que é isso? – perguntou o menino.
– É o nome que damos para o garfo, a faca e a colher quando estão juntos, disse a mãe. Às vezes as coisas têm um nome quando estão sozinhas, mas podem ter outro quando estão juntas, sabia?
– Garfo e faca são talheres? Perguntou Bernardo.
– Sim… – Respondeu a mãe.
Querendo testar sua compreensão, a mãe pergunta:
– Nós, separados somos mamãe, vovó, netinho, visita… E juntos, comendo e conversando, o que somos? (Esperava que respondesse que somos amigos ou coisa do gênero). E o menino, sem hesitar, respondeu:
– Talheres!
João PedroMauro, pai do João Pedro, nos conta que quando o menino tinha de 2 para 3 anos, se referia a ele próprio na terceira pessoa: o João Pedro quer isso, o João Pedro fez aquilo. No dia do aniversário de 3 anos, enquanto o pai lhe dava banho, ouviu do menino: “gostei muito do aniversário do João Pedro. Na verdade a gente é que gosta muito do João Pedro”. Outras situações são propícias a conversas gostosas com os pequenos. O trajeto para a escola, a hora de ir dormir, os passeios tranquilos dos finais de semana, a casa dos avós.

 

Como e onde as famílias costumam registrar as falas das crianças?

Maria FernandaCada família faz os registros à sua maneira, não há regra. Hoje, além do lápis e papel temos o computador, os chats e as redes sociais. Maria Fernanda tinha muitas soluções para verbalizar as palavras que ainda não sabia ao certo como dizer. Essa língua adaptada levou Ufavo, como chama o pai, Gustavo, a construir um dicionário das primeiras palavras ditas pela filha. O pai registrou no computador as palavras como, afufa (pantufa), a (dormir), amo amí/umí (vamos dormir), apitado (apertado), baoite e banoite (boa noite), buíto (bonito), coiendo (escolhendo), dipupa (desculpa), dununinho (danoninho), fóti (forte), jeelo (joelho), maadela (mamadeira) ibóia (ir embora), xumiga (formiga) … Gustavo conta que certo dia, voltando de um passeio com Maria Fennda ou Maia Finanda como ela se chamava e o Fiiíco, Frederico, seu cachorro, pediu a ela, em uma brincadeira recorrente, que falasse a palavra mágica para abrir o portão de casa. Ela simplesmente o olhou e respondeu: “cotole”. Rindo, mas com cara de bobo, o pai acionou o controle e abriu o portão.

 

João Pedro facebookOs pais de João Pedro, hoje com 7 anos, também utilizam as redes sociais para registrar, publicar e divulgar para os avós e toda a família, que moram longe, as falas e descobertas de seus filhos. O hábito é familiar. A tia de João Pedro tem uma página no facebook só para relatar a brincadeiras dos primos.

 

MarianaFabiana, mãe da Isabela de 2 anos, também utiliza as redes sociais e chats do celular para relatar as estripulias da filha. A última que contou para tios, primos e avós aconteceu durante a refeição. A mãe apressada para sair não deixou para Isabela a função de comer sozinha. Isabela tentava, mas Fabiana dizia “não quero que você se suje”. Depois de várias tentativas, Isabela disparou: “mamãe, sozinha, que saco!”. Fabiana acrescentou ao seu registro: “rir ou chorar? KKK”.

Só de conversar e pedir para as famílias os registros das narrativas das crianças provocamos transformações. Conta Luana que nunca havia pensado em registrar as pérolas de seu pequeno Luca, 2 anos e 6 meses, mas que iria começar a perpetuar esse material de alguma forma.

Por e-mail, Luana compartilhou conosco que, na iminência de mudar de cidade, disse para o pequeno, que adorava o filme Madagascar, que iriam morar na cidade do filme, com a zebra e o leão. Passados alguns dias dessa conversa, Luca retoma o assunto: “não é mamãe, que a gente vai morar no zoológico?”

Para a diretora Claudia, a relevância de fazer a escuta e o registro das falas das crianças é despertar a atenção dos tutores para aquilo que a criança pensa, verbaliza, opina e ensina sobre o mundo. Ao partilhar esse tipo de ação, escolas e famílias somam esforços, estreitam laços e qualificam a parceria na educação das crianças.

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PARA SABER MAIS…

Para conhecer mais sobre a escuta e o registro das falas das crianças leia a postagem Palavra de… Claudia Siqueira: um projeto que escuta as crianças

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