Palavra de… Bia Nogueira, atelierista

Bia Nogueira, atelierista da Escola Primeira dá a sua receita para realizar uma mostra que coloca a aprendizagem e a estética em destaque.

Bia Nogueira, atelierista da Escola Primeira, SP, dá a sua receita para realizar uma mostra que coloca a aprendizagem e a estética em destaque.

Tempo de Creche – Qual a importância de um evento como este?
Projeto Cores e Tons - Escola PrimeiraBia – A escola trabalha por projetos e a mostra cultural dá visibilidade a eles. Os projetos vão acontecendo durante o ano. Às vezes acontece de mudar o tema, mas existe uma linha condutora que vem do que as crianças trazem. Estes aspectos vão sedo trabalhados com os educadores, a partir de pequenos momentos que vão aparecendo nas salas durante o ano. Tudo devagarzinho, porque é uma construção longa. A Mostra Cultural dá uma dimensão aos projetos, uma espécie de conclusão por meio de outra vivência, pois quando os trabalhos estão montados numa mostra, a experiência é outra. Não é só apresentar o que foi feito, é recriar o que foi vivenciado, destacando os aspectos mais significativo ao longo do processo e, além disso, potencializar em uma experiência que pode ser compartilhada com os funcionários, com a família e com as crianças da escola, porque elas vão vir para a mostra e viver coisas que são familiares a elas de uma outra forma.

Tempo de Creche – É apresentar mais o processo do que o produto?
Bia – Uma parte do produto também é exposta. É feita uma seleção, mas o que importa é apresentar uma espécie de síntese do projeto, para criar uma experiência de algo que marcou.

Tempo de Creche – Com as criança revivendo tudo isto?
Bia – Hoje elas estão vivendo algo novo porque está apresentado diferentemente, em um contexto novo. Então, de alguma forma é uma novidade. Portanto, elas estão revivendo e conhecendo novas situações também.

Projeto Esqueleto - Escola Primeira

Tempo de Creche – Ao visitar a mostra percebemos um olhar de arte contemporânea. Como você vê isso? Vê uma conexão entre o que as crianças fazem e a arte contemporânea?
Bia – Sem dúvida. Estamos no ponto da vivência, aproveitando conteúdos e propostas da arte contemporânea, principalmente na quebra das fronteiras das linguagens: da pintura, da escultura e do desenho. A arte contemporânea traz um pouco esta fluidez entre uma linguagem e a outra. Então desclassifica. As experiências que trouxemos têm um pouco de vivências escultóricas, instalativas e também tem a pintura. É um encontro das linguagens apresentadas em vivências importantes para o ensino infantil, na abrangência dos cinco sentidos, caracteristicamente explorados pelas crianças. O lúdico fica, assim, muito próximo, muito corporal, muito físico, um conhecimento que vai além artístico. As crianças, durante os projetos, constroem uma série de hipóteses, sendo, algumas delas viáveis de serem trabalhadas, de serem exploradas para construir conhecimentos. No projeto do avião, foram levantadas as características do avião, da altitude e da formação das nuvens. Claro que tudo dentro do limite de informações possível de ser absorvida pelas crianças. Os projetos têm este lado e a mostra, então, também traz a integração das áreas do conhecimento.

Tempo de Creche – Fica evidente o cuidado em preservar as produções entre os registros de processo (fotos, relatos, filmes etc.). Guarda-se tudo o que as crianças fazem ou guarda-se um pouco? Já se tem um olhar na hora de preservar, prevendo este evento? 
Bia – Tem sim, o avião foi feito no 1º semestre! Ele ficou exposto para as crianças durante um período, onde todos podiam ver. Mas se deixássemos por muito tempo, a produção ficaria desgastada. É preciso arrumar estratégias guardar o que a equipe sente que seja significativo, que vale a pena preservar.

Projeto 14 Bis - Escola Primeira

Por outro lado, muitas experiências importantes podem ser gravadas, registradas em fotografia e filmadas. A maior parte das fotografias não está exposta nessa mostra. A ideia desta não foi trazer muitas informações de processos porque as crianças e os pais vão levar um portfólio no final do ano e vão conhecer tudo isso nas reuniões pedagógicas. Assim, as sínteses apresentadas na mostra partiram de tudo, dos registros e das conversas entre a equipe. No 2º semestre todos vão fazendo uma curadoria sobre os registros e as produções e o trabalho vão se objetivando.

Tempo de Creche – Então este evento é também um direcionador para a curadoria?
Bia – Sim, nada foi feito de véspera, tudo aconteceu processualmente. Havia organização por que todo mundo sabia o que era foco nos processos e o que ia colocar na mostra.
Muito dos trabalhos são frágeis porque passam pelas mãozinhas das crianças. Como atelierista me senti como uma espécie de restauradora, tentando refazer as produções, mas sem apagar os gestos, a construção da criança e tentando deixar o produto adequado para a exposição, como por exemplo colocar em pé, para não intervir no trabalho da criança e preservar as informações que estão ali.

Aproveitamos que a Maria Alice Proença (assessora pedagógica da Escola Primeira) estava passando e ampliamos a entrevista!

Tempo de Creche – Qual a importância deste evento na relação com as famílias?
Alice – Dentro de uma proposta da abordagem italiana (Reggio Emilia), eu acho que quanto mais visível tornamos a aprendizagem das crianças, mais nós temos chance de fazer todos participem desta história. A visibilidade e a transparência dos trabalhos está muito ligada a um convite para que todos possam se sentir incluídos. Na verdade tudo o que acontece aqui faz parte do que as crianças construíram ao longo do ano, não é uma coisa montada para mostrar, é um recorte dentro de um processo. Nesta hora as crianças podem mostrar para os pais aquilo que elas fizeram. Muita crianças chegaram na escola ainda com fraldas, com uma linguagem verbal diminuta. Pelas fotos, podemos ver como se desenvolveram e eles próprios, vão com o dedinho mostrando o crescimento e o que fizeram, esse é sentido da inclusão.
Acho que esta proposta da exposição também tem um trabalho muito grande de reflexão dos professores. Tivemos ao longo do ano um processo de formação dos professores sobre o desenho, de responsabilidade da Bia. Assim, pelos registros, o professor pode olhar para o próprio percurso e refletir sobre com fazer cada vez mais e melhor.

Tempo de Creche – Como este evento se reflete na equipe pedagógica?
Alice – 
A exposição também serve para sair dos muros da escola e, além das famílias, convidar todo mundo, para ver um pouquinho do que é feito aqui. Dentro deste processo a mostra é um espaço não só para dar visibilidade, mas para provocar na equipe a reflexão: para a Bia como atelierista, para a coordenação, nas interações que vão acontecendo, inclusive olharmos para o percurso e fazermos proposições e sequências didáticas. Desse modo, olhando para aquilo que as professoras mergulharam, é possível identificar conteúdos que precisam de formação, como no caso da mostra do ano passado na qual sentimos a necessidade de investir no desenho. Hoje notamos como as nossas crianças avançaram no desenho

Os projetos realizados ao longo desse ano pelas crianças, professoras, a atelierista Bia Nogueira e a coordenação Escola Primeira foram intensos para todos os participantes e também para nós, visitantes da mostra. Falaremos de cada um desses processos com muitas imagens na próxima postagem. Aguarde! 

foto Bia NogueiraBeatriz Nogueira – “Bia” – é formada em Artes, artista visual e educadora. Atua no ensino formal e informal. É atelierista na Escola Primeira, SP.

 

Foto Maria Alice ProençaMaria Alice Rezende Proença é doutora em educação pela PUC-SP, mestre em didática pela FEUSP, assessora pedagógica da Escola Primeira, formadora da rede pública e privada, coordenadora do projeto Paz se faz com arte da Aliança pela infância e MAM-SP 

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