Socorro: minha turma é difícil!

Às vezes olhamos para a nossa turma e pensamos: Acho que fomos sorteados! Que turma difícil! Para mergulharmos nesse contexto, propomos uma viagem reflexiva.

Frato Creche não é um cabideiroNossa crianças são brincantes, alegres, energéticas, corporais, cheias de iniciativas e exploradoras do mundo que as cerca! Mas, às vezes olhamos para a nossa turma e pensamos: acho que fomos sorteados! Que turma difícil!

Enxergamos uma reunião de diversos perfis: o hiperativo, com o endiabrado, com o líder, com a esperta, com o agressivo, tudo num filme que poderia se chamar “Os Sem-limite”!

Você já se sentiu assim?

Com essa reunião de personalidades marcantes, o dia a dia fica denso, cansativo, imprevisível e dá uma sensação de que não conseguimos produzir nada com a turma.

Vamos voltar um pouco no tempo para entender de onde vem a energia da criança brasileira. A pesquisadora em desenvolvimento humano, Elvira Souza Lima, em conferência realizada no 18o Simpósio de Educação Infantil do Colégio Santa Maria, 2015 – SP, falou sobre as origens da cultura infantil no Brasil. A pesquisadora nos levou a pensar sobre a criança brasileira, suas características e o seu jeito de ser.

Desde o descobrimento, as crianças portuguesas, negras e índias brincavam juntas. Brincavam nos ambientes externos, num universo de ruas de cidades primitivas e aldeias, repletas de natureza para explorar e se aventurar. Muitas cidades pequenas ainda hoje mantém essa configuração ao dispor das aventuras infantis.

Aí, no século XVIII, depois de 300 anos de brincadeiras livres, as nossas crianças ficaram conhecidas no mundo como “endiabradas”, significando irrequietas e que riam demais. Cá entre nós, que bom! E por isso, num mundo em que a infância ainda buscava um espaço e os brinquedos estavam sendo inventados, no Brasil já tínhamos um acervo de brincadeiras infantis e 12 lojas de brinquedos só na cidade do Rio de Janeiro! Nem em Paris, referência cultural mundial da época, não havia tantas!

Então está explicado! A personalidade e o jeito de ser da criança brasileira vem se constituindo há 500 anos e … foi dar nisso: pequenos brincantes, risonhos, corporais, criativos e pesquisadores do universo ao seu alcance!

Então, vamos voltar para a sua turma. Essa descrição da professora Elvira deve fazer todo o sentido, não é? Você olha para as suas crianças, pode enxergar as características pesquisadas pela antropóloga e percebe que são da natureza da nossa infância há muuuuitos anos!

E aí cabe a reflexão: essa vivacidade precisa ser mudada? O esforço do dia a dia não está se transformando em remar contra a maré?

E, finalmente, vamos nos questionar a respeito daquilo que temos planejado e desenvolvido: será que temos proposto atividades condizentes com a personalidade do grupo

Eles são protagonistas das suas propostas?

Uma professora, recentemente, fez a seguinte observação durante uma formação que fazíamos na sua creche: “Puxa vida! Minhas crianças só querem saber de súper-herois!”. Que ótimo que as crianças foram claras em demonstrar os interesses e a professora percebeu! Parta desse tema! Construa súper-herois, conte histórias sobre eles, proponha desenhos, capas, brincadeiras de correr, “voar”, salvar o amiguinho … tantas opções mágicas!

Temos desenvolvido atividades corporais, de movimentos amplos?

Crianças energéticas, com disposição para correr, pular, subir e descer, precisam “gastar” esses movimentos! Precisam exercitar essa necessidade de preferência em áreas externas, mas, se não for possível, pode-se adequar a organização da sala. Proponha jogos, brincadeiras de circuito (acesse o post  Aprendizagem dos Movimentos), com tecidos, bancos, colchonetes, mesas e organize materiais para ampliar o faz-de-conta e estimular o uso do corpo.

Que tal deixar as atividades que exigem mais calma e concentração, como rodas de conversa e contação de histórias, para o período da tarde, depois que as crianças já gastaram um pouco da energia? 

Algumas professoras colocaram a questão de que contar histórias para suas turma é uma tarefa impossível. Por mais interessante que a história seja! Essa situação pode estar ligada à escolha do horário da atividade de contação. O professor pode escolher um momento à tarde, antes das crianças irem dormir, e pegar os pequenos num estado de entrega, de ouvidos abertos e cabeça tranquila com vontade de viajar. O final do dia também pode ser uma possibilidade a ser testada.

Outra hipótese para conquistar as crianças para a contação de histórias é abrir espaços de participação no enredo:

  • Dar pequenos objetos sonoros (chocalhos, maracas, tambores) para elas fazerem os barulhos da história, orientadas pelo narrador – sonorização de histórias.
  • Fazer perguntas durante a narração: o que acham que vai acontecer? Conhecem tal fato, animal, objeto? Convidar para mitar gestos da trama etc.. É uma questão de abrir momentos curtos para pequenas participações.
  • Em histórias já conhecidas, à medida que for narrando, pedir para que as crianças completem a narração.

atividades corporais e interessantes

Investir em cantos de atividades diversificadas

Oferecer um “cardápio temático” de brincadeiras para as crianças escolherem, favorece o desenvolvimento da tomada de decisão, da autonomia, relacionamentos, vivência de regras de convívio e resolução de conflitos. Também é uma maneira de trabalhar com grupos respeitando o ritmo e o espírito brincante de cada criança. Lei as postagens Dicas para planejar e preparar Cantos de Atividades DiversificadasPalavra de… Denise Nalini: cantos de atividades e as tomadas de decisão da criança para compreender e implementar esse recurso valioso na rotina das crianças.

Estas são algumas estratégias para trabalhar com turmas mais agitadas. Mas, resumidamente, elas apontam para dois eixos que sustentam qualquer planejamento bem sucedido: crianças ouvidas e interessadas são felizes e se desenvolvem bem!

barrinha colorida fininha

Elvira Souza Lima é pesquisadora em desenvolvimento humano, com formação em neurociências, psicologia, antropologia e musicista.

4 pensamentos em “Socorro: minha turma é difícil!”

  1. Ótimo texto, era o que buscava. Pois este ano estou com uma turma de maternal agitadérima e com várias lideranças. No inicio até propus atividades com músicas e danças, mais parecia que agitava mais, e agora lendo este texto percebo que estava no caminho certo, e agora terei embasamento para dar continuidade ao que me propus.
    Agradeço a voces, pois cada vez mais fico encantada com este espaço.
    parabens a todos.

  2. Excelente texto, chegou para acalmar meu corpo irriquieto. Na EMEI são 35 alunos, uma multidão… Porem, o olhar e a escuta se fazem necessário, deve ser um exercício diario esmo diante das dificuldades. Apos um mês de trabalho. Posso afirmar claramente que cantos temáticos, leitura, brincadeiras com regras e atividades envolvendo diferentes linguagens expressivas compõem a rotina da sala, acalma o grupo, proporciona desafio e possibilidades… Descobertas feitas ao longo do processo apos longuíssima reflexão PÓS AULAS

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