Surpresas no planejamento do dia a dia

Como trabalhar propostas para crianças criativas e investigadoras que indicam novos caminhos para os planejamentos do professor? Leia as opiniões dos leitores do Tempo de Creche.

Será que as propostas que realizamos com as crianças acontecem conforme o planejado?Conseguimos prever como elas vão reagir? O que elas vão perguntar? Como vão brincar? Pelo que vão se interessar? O que vão aprender?
Questionamentos como esses causam ansiedade em todos os professores. Aliás, o incerto perturba qualquer pessoa!

Fizemos uma proposta de reflexão a partir do trecho de uma entrevista com a fotógrafa Maureen Bisilliat. Assista o vídeo:

Pelo comentário da fotógrafa, percebemos que ela tinha recebido a encomenda de um livro de fotografias em preto e branco sobre os índios do Xingu.

Maureen, apesar de ter se preparado para atender a tal encomenda, ao chegar no local, percebeu que a fotografia preto e branco não traduziria o contexto. Maureen ficou sensibilizada pela força das cores vermelha, preta e amarela do Xingu e, assim, decidiu modificar o projeto inicial, fazendo um livro de fotos coloridas.
Esse trabalho fez da Maureen um expoente sobre a cultura e os hábitos dos povos do Xingu.

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A mudança de rumo no trabalho da artista pode ser comparada às mudanças que precisamos encaminhar no cotidiano com as crianças?

Muitos leitores do Tempo de Creche contribuíram com respostas interessantes para esta questão. Vamos refletir?

Iolanda Pereira nos disse que, às vezes, o que levamos para os pequenos se sobrepõe ao que as crianças propõem. Por isso, para ela é preciso ter flexibilidade naquilo que se planeja. Cintia Cannavo alerta para a necessidade de perceber as nuances, e Paloma Candida para os barulhos que povoam a cabeça dos pequenos.

Paloma Almeida foi na mesma direção. Ela destacou que no momento das vivências, as crianças podem modificar as nossas perspectivas iniciais. Nesse sentido, os pequenos criam suas próprias aventuras de prazer, tecendo com orgulho ideias iluminadas.

Luciana Rossi Nascimento disse ter que aumentar a cartela de cores nos planejamentos que, em geral, enxergavam o preto e branco dos projetos. Para a professora, as crianças sempre surpreendem. Nesse aspecto, Jaqueline Diel lembra a importância de se deparar com as surpresas e se reorganizar para contemplá-las.

Complementando esse pensamento, Ana Cristina Souza Campos nos lembra que não é preciso se desesperar com as novidades porque podemos registrá-las e trabalhar nelas num momento de reflexão: o exercício de olhar e ouvir as crianças a todo momento é o nosso maior desafio. Quando nos vemos surpreendidos com respostas inesperadas à nossa ação, mesmo que não tenhamos a possibilidade de mudá-la imediatamente, a reflexão permanente se impõe e novas rotas precisam ser traçadas.

Ana Mariza Filipouski faz uma conexão sobre as surpresas da fotógrafa Maureen e o inusitado do cotidiano do professor:
O planejamento expressa a intenção do professor (assim como o desejo de Orlando fundamentou a demanda a Maureen), mas o sujeito que vê os alunos que serão atingidos pelo projeto impõem o seu ponto de vista, a sua percepção (que às vezes podem surpreender). Como o exercício da docência se faz permanentemente por ação-reflexão-ação, os achados não previstos servem para informar novas propostas, para indicar possibilidades nem sempre antevistas ao propor, mas quase sempre válidas se o professor tem clareza do fazer pedagógico. Um planejamento serve para traçar um caminho, mas só se concretiza durante a caminhada.

Finalmente, Gisela Ferrer trouxe poesia à nossa discussão: crianças enxergam cores à partir da própria existência. É muita luz para um mundo em preto e branco!

Agradecemos aos leitores do Tempo de Creche que contribuíram generosamente com essa postagem e, aproveitamos para convidar para as próximas reflexões coletivas. Aceite nosso desafio!

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Balão-Para-Saber-MaisPARA SABER MAIS…

Veja a entrevista completa da fotógrafa Maureen Bisilliat no programa Provocações, da TV Cultura.

 

Retrato da fotógrafa Maureen Bisilliat. Ao fundo uma de suas fotos feitas no Alto Xingu.
Retrato da fotógrafa Maureen Bisilliat.

→ Sheila Maureen Bisilliat nasceu na Inglaterra e mudou-se para o Brasil em 1957. Autora de livros de fotografia inspirados em grandes autores brasileiros. A partir de 1980 dirigiu em parceria com Lucio Kodato o documentário Xingu/Terra e, em 1988, foi convidada por Darcy Ribeiro para montar o acervo de Arte Popular Latino-americana, que deu origem ao Pavilhão da Criatividade da Fundação Memorial da América Latina, SP, do qual foi curadora até 2011.

→ Leia mais sobre como planejar propostas flexíveis nas postagens:

O que planejar… alguma sugestão?
Organização de propostas: garantia de brincadeira e aprendizado
O ritmo das crianças e a ansiedade do professor
Preparar atividades: o desafio de planejar o imprevisível

Registro e Documentação Pedagógica: o diálogo com a prática

Registro e documentação pedagógica ampliam o olhar, apontam os interesses das crianças, dão pistas para novos planejamentos e revelam as aprendizagens.

Ao final de cada sequência didática ficamos com a sensação de que deveríamos ter uma plateia acompanhando as habilidades e conquistas dos nossos pequenos! Puxa vida, tem muita gente perdendo esse espetáculo da vida real! Talvez registro e documentação pedagógica sejam um caminho. Mas como dar os primeiros passos para registrar e documentar?  Ou isso tudo é simplesmente “burocracia”?

Recentemente recebemos e publicamos o relato da Keli – Uma prática de documentação pedagógica para aproximar famílias, uma professora de berçário que descreve seu percurso na elaboração de uma proposta de documentação pedagógica. Sua intensão foi fortalecer a comunicação com os pais, na medida em que na rede municipal onde trabalha a participação dos pais e da comunidade na escola é bem pequena.

Uma das muitas questões que a instigava era uma forma bacana de compartilhar com as famílias todo o trabalho que era realizado com os bebês de sua turma. E a forma de apresentação deste processo resultou em alguns boletins informativos que foram entregues aos pais e expostos no quadro da escola.

O registro deve ser considerado como um instrumento metodológico da vida pedagógica. O que implica em ampliar o olhar, captar pistas para os próximos planejamentos e não ver a ação apenas como uma obrigação ou exigência da instituição. Cada professor precisa criar uma disciplina que garanta a frequência e a elaboração das informações.

Relato 1Registro e documentação pedagógica são, dentre as atividades dos professores, temas recorrentes e de constante aprendizagem. Na postagem Um guia para a jornada do relatório individual construímos uma sugestão de roteiro para auxiliar a elaboração de relatório, focando a trajetória de cada criança, com suas singularidades e conquistas.

Mas como assegurar que ao final do período, teremos material suficiente para refletir sobre o percurso de cada criança? E como criar uma rotina para compartilhar frequentemente com equipe, famílias e crianças os processos vividos pelo grupo?

A resposta parte de perceber e experimentar os ganhos com a disciplina de fazer registro que, como já dissemos, não é burocracia, mas é parte integrante do trabalho do professor. Continue lendo “Registro e Documentação Pedagógica: o diálogo com a prática”